Poemas de S.S


silêncio pleno em meu peito
o olhar enublado e ungido
de um nome branco e infindo
uma cadência milagrosa do mundo
sobre o rosto um precoce rubor prolongado
o voo dissipando-se nocivo
o corte celeste na alegria sombria
de tudo.

e nada se assemelha à viagem
à movimentação inquieta
de uma múltipla saudade que agrega
lucidez à surpresa
- uma respiração reescrita à pressa
possante a morte desprendendo da pele
um murmúrio quase noção do mundo.


*


aceita que és só morada
de algo que muda e forja
e range e rasga
aceita que és miríade de algo
que dói e cala
e rumoreja e abala.

aceita que és só
um pedaço recrudescendo
num todo de tudo.


*



e quem investe na viagem
não sabe o quanto padece a palmeira
quando lhe cessa o vento
não sabe e recusa saber
que a morte instala no medo
calcificando a mulher à sua sorte
e ninguém ousa sequer indagar
se prefere ser eterna
ou simplesmente passageira.


*


quem pôs no peito da mulher
esta ferida iluminada
sangrando cegamente?
sei que me escutas, oh deus de amor,
vem enterrar depressa
esta pontiaguda espinhosa ausência
d'alma que compreenda que as almas errantes
ruminam longe e lunares
e um só vislumbre se sente
aqui e agora (e sempre, acho)
e vem devolver serenidade aos amantes
dependurados na sua teia triste
e vem puxar-me toda plena
planando no olhar que só por calar já fere
para lá trucidar a pena.

sei que aí estás
vigiando os homens e suas inquietudes
toma conta da geometria dos poetas
que o ponto agora é nó
que a ferida é o farol de cada dia.


*


levasse a ave da noite
o meu vagar no voo
levasse o grito comedido
o murmúrio do mundo encerrado
em desterro se apartassem
as sombras e os cismas
a experimentação dos rituais revelando
o rumor de que vive o que é longínquo
e a ausência de um rosto animal
para dar azo e corda ao coração;
levasse a tempestade
a fúria toda revolvida
devolvendo os rasgões ao tempo das chuvas
a chaga alarve dilacerada
dividindo os trovões na carne
no teu colo árvores tremendas;
levasse a fonte à folha
porque a caneta é uma água benta
na boca.


*


as mães movimentam os maiores medos
como quem domestica vulcões
que se adensam pela vida
dos filhos adentro,
ressoando labaredas
torpedos titânicos;
agarrando o coração
pela corda inquietada da mulher
os filhos esgravatam rochedos
arquitectam chegar-lhe perto
em vão a vida voa
parece fugir-lhes do peito
o vagar a vontade
esgota-se-lhes as palavras
os gestos calados
trovejando no ventre
a maravilhosa possibilidade
do amor ser um éter
amniótico caótico
habitando, maternal, a eternidade.


*


e há flores que magoam
o fundo das coisas
há flores mergulhadas
no ventre das mágoas
há forças emergindo
do grotesco ungido do mundo
há fórmulas assoreadas
no vício e no limbo
de quem não fala que ama
a florescente dor
que sobre tudo derrama.


*


a ferida só dói se a sentes
como se nada mais houvesse.
a ferida é afinal uma ida que fere
uma deslocação feroz
que regressa combalida
e em ti se aloja
deserta e mendiga.

não te detenhas nela
deixa que se sustente
só, abandonada
numa reclusão atroz
que só com a água
que lhe molhes os lábios
se sinta apaziguada
porque, mais dia menos dia,
todo o corpo sucumbirá
toda a fera sossegará;
como uma flor aberta
que sabe que fechar
é um modo indolor
de regressar.


*


eu não sei se é o amor alevantar-se alto
se é a rude suave insone alegria
a tocar a bradar em mim
em ti que sonhas
na rubra matéria solar da vida
mas que ela é linda, é.

eu não sei se é a raiz a esboroar a luz
se é a calma a cronometrar na alma
que fundes disseminando
pelos corredores de ramagem
coroando o suspenso sonoro silêncio
que curvas,
mas que ele é intenso, é.

eu não sei se é espírito a tocar a sorte
se é a obra a derramar-se
pelo teu coração adentro,
mas sei sim que a poesia
é a criança a criar aliança
nessa oração de amor e construcção.


*


a brutalidade do nosso amor
é constante, acelerada
rasga crava
emerge ritmada;
és pedra és dor
és brutal a brotar amor.


*


se eu fosse um punhal
eu deixaria cair
a lâmina
todos os dias
na erva molhada
até ela regressar
em flor.


*


houve um poema
que te guiava
a ti e à tua desmesurada alegria
o poema diante ti descarrilava;
e que bom descarrilar contigo
sem medos nem freios
essa tua alegria compartimentada
nas várias carruagens
demorou a desembarcar
não se queria abalar
foste tu então
que decidiste a última estação
onde irias embarcar
proverbial, ambulante
inesquecível, irremediável
ralo abaixo no coração.

houve um poema
que cambaleava
aos tropeços nos blues
desse embalo carioca
"dá-me a tua mão, vem dançar"
ai que os moribundos
são mais felizes dançando
nos mais recônditos soalhos das ruas,
das tuas,
em que te vejo
de arma em punho
para acertares o ritmo
do poema acidental.

houve um poema
que te queria
olhos a trespassar
boca a soletrar
um incondicional amor
que vinga completo
fora da tua carne cardíaca
sirenes baixas
samba contido
deixaste branco o poema
deixaste mudo o medo
convidaste o leitor a amar.


*


sinto-me um entardecer
quando, pela norma, deveria começar no amanhecer
e findar no anoitecer
mas não,
sinto que se faz sempre tarde em mim
que não me permito ser cedo
e ainda não sei se é assim por medo
de arder como o filtro do cigarro
que nunca agarro com receio
de me perder como o nómada do cigano.

sinto, conquanto, uma adoração
pelo fim do dia
que me causa uma doce consternação
de azul cinério reflectido
de poesia em meu olhar
devoto e convertido.
sou como o petróleo que escasseia
lá longe,
com a certeza de não mais se converter
num outro fim
senão azulado
que abunda no entardecer de mim.

amanhecer, entardecer, anoitecer:
não importa qual a ordem
importa sim a forma
como em mim os faço render
e eu escolhi fazer do entardecer norma.


*


qualquer tempestade seria mais pacífica
que a minha memória de ti
subir sempre ao hades
e só detritos em cinza
de se doerem em brasa,
quem não me dá amor
não me dá nada.

é pena que o sangue que se expulsa de mim
não te tenha contido
vermelhidão a desvanecer negra
para no hades prescrever
a faca que afaga
a fome que farta
o fogo que fissura.


*


o poema pôs-se a sangrar

o poema é de vidro - do vidro mais puro
é límpido, frágil, fortificado, viril.

o poema é o espelho mais puro
a invenção de fina areia
que reluz o poeta obscuro.

o poema quebra cabeças
e repara corações
cabeças que são punhos
corações que são cacos.

o poema sangra
a escrita sangra
a caneta sangra
a mão sangra
o resto sangra.
eu sangro mais.


*


há um rio imenso
a correr na banheira
na encosta do corpo
de uma mulher pensativa,
um rio que leva e lava
depósitos e destroços,
que torna alvacento
o cenário poeirento
de quem à superfície
imerge em pensamento.

os pensamentos gostam de se confundir com corpos,
pele sequiosa
ossos regenerados,
rios puros a montante
rios em apuros a jusante,
rios cíclicos
rios rítmicos.


*


não merecias entrar-me pelo poema adentro
fazer abrigo acampado
da tenda que ora se monta, ora se desmonta
no parque dos poetas.
no entanto, pelo à-vontade, me parece que
é essa a casa onde mais refugias
o indomável desabrido intelecto
que dá-se-lhe chão e desce ao coração
onde de tanto acumular amor
já ninguém pode suportar
o seu valor de aluguer.

por isso,
vai montar tenda para outro poema,
amor.


*


levamos anos a subir à nossa própria montanha
decididos a atingir o topo, de uma só vez,
arquitectamos todo o trilho
crendo piamente nessa nossa façanha.

com uma valente carga às costas
vamos munidos de uma variada parafernália,
será necessária, achamos,
serve para nós de didascália.

não vale a pena contornar a montanha
nem tampouco atalhá-la,
é penetrar pelo interior
como peregrino que trilha com amor.

cada vez mais alto, perde-se o musgo
a erva, a árvore, a água, a terra
a montanha despe-se perante o homem
vestido de pedra.

atingiu o cume, pensa,
foi o primeiro a pisar o topo,
que fazer agora,
juntar-se ao pedregoso Corpo?

está sedento de humidade:
talvez perfurar o terreno
na esperança de um elo
que lhe humedeça a saudade.


*


para a S.

sempre mostraste entusiasmo
acelerado desmedido
sempre bateste as asas
como quem abala certeiro
no coração daqueles que agitas
recolhendo o pólen
da comprometida leveza criadora;
sempre envergaste coragem
sempre te ergueste
mesmo quando todos te puxavam
para o descanso falacioso dos desistentes;
serás sempre futuro para os revolucionários.


*


quando amas, uma infinita poalha volteia purificando
os corações dos amigos
ainda que não o atentem
há uma cadência crepuscular em cada coisa
- até na incompreensão infecunda -
a palavra penetrará o gesto e, quando unos,
a verdade estará perto de assentar
no turbilhão de poalha
que pela vida adensa maturando.
sabes, o latejar corroeu rasgando a máscara,
quando desnuda,
a mulher sucumbirá num amor primitivo
pode que ventrifique tudo de novo
recolhendo os resquícios felizes
(estes, muitas vezes, decorridos dolorosos)
transfigurando-os filiais
porque um amigo é um filho que custa amar
assim, simples
porque espelha verdade e desilusão
a nossa esdrúxula coragem tentando atingir a imensidão
que a toda a hora cessa que a toda a hora excede
que não sabemos medir bem porque nos falta a exactidão
porque nos falta regressar à inocente inventiva
- prolongada poalha envolvendo o coração.


*


mas tem de alguém continuar
com a fúria feliz no jeito de se dar
à vida e tem de cravar
uma emoção em cada pedra
uma cor em cada trova
e uma sorte em cada curva
tem de alguém continuar


*


o meu olhar persegue a luz
no horizonte viaja
até ti
faz noite
aí na América
faz dia
aqui na Europa
o nosso olhar gira e fixa
o sol que não tem morte
que só nasce
aqui,
amor.


*


nunca perguntaste a uma borboleta
se lhe custa voar quando transformada
qual o peso largado no voo
e é custoso o ranger de pele do mundo
que agora recomeça
o corte copioso sobre um pedaço de sopro
movendo o teu sorriso pela noite
- ó hora tardia que findas um ciclo
a música é a aurora
que traças no meu modo de abrir ao sono
a recordação que traz ao peito um súbito desejo
de te ter aqui um dia
já leve
desvendando a beleza
do nosso voo rumo ao silêncio.


*


vais rasgar de novo a pele
como um ventre preparando-se
para o impossível incomensurável amor
de um ser que agora retorna
a ti sob a forma de luto e alegria
- essa poeira partindo-se
em palavras que ficam por dizer
tocado ao de leve a brevidade do mundo
vais rasgar o que foste
e o que não queres ser
ainda estás a aprender a expressar
que és tudo o que de mais puro existe
resiste sempre de alma aberta
às pessoas - à ponta do nó que quer ser ponte
caminhas exposta à mortes que ensaiam a vida.


*



há uma ventania sacudindo os cabelos aos mortos
[nunca a revoada fez tantos nós
no teu coração]
uma verdade assentando completa e vigente
na noite que ninguém teme
- só o penitente agarrado à cama em febre gemendo
[haverá dor maior que a física, a de um vivo
achando-se morto?]
às vezes o teu regresso à doença
é a tua dívida para com a aliança
e é sufocando que atinges o fosso
− o firmamento.


*


há uma mulher que abala
na rua estreita adjacente à vida
e regressa ferroviária ao mundo,
ao fumo, ao húmus, ao luto
inquebrantável o cisco do passo
em procissão ao campo armadilhado
quase maresia bruta
e há um compasso muito acelerado
de uma mulher enferma
que segue viagem
no lado de cá do poema
mas que permanece presa
a tudo
[recôndita expansiva violenta apaixonada]
pelo mínimo e absoluto
como uma árvore no corpo
- rebentando todo o drama ardente
que finda inerme no nariz na boca
expurgado o aborto dos homens
[que amaste sem dor]
sem coragem no coração
e cordas de linho na garganta
- arranha a torpe traça
quebrando num canto excelso
transitório grotesco
intimando a mulher
a soprar espírito na carne
borbulhando nas águas feridas do seu éter.


*


quando os amantes se tocam
já nada permanece igual
nem quando regressam à rua, ao trabalho, à vida
o ar é apenas um intervalo do sonho
tocado pelo linho do seu entrançado
sorriso / o resto é pura sinestesia do amor
e há uma mulher divagando imersa na corrente de lume
que atiça o homem, prudente e delicado,
sobre o mosaico de outros seres amados
e a mulher destrinça e resvala e abarca
o amor do mundo naquele homem
que agora se juntou a ela

a desvendar-lhe o mistério.


*


as manhãs são espaços milagrosos
adentrando-se nos homens que recomeçam
sob o brilho ínfimo do sonho alevantado na vida
- um vento parco incisivo no rosto enfermo
e uma sombra púrpura terna no rasto ermo;
as manhãs são ondas perfumadas de frio e cálido amor
flores sobre um piano de linho
no teu corpo em comunhão campestre,
o teu sorriso é uma folha à deriva
no momento da tarde sombria
em que findam as forças
e a melodia é uma suspensão mareada do nome das coisas
- estás entregue a ti em tudo.



*



e é talvez a bruma da finda tarde
que prolonga em mim
os seus cabelos d’oiro
uma capa rosácea afagando a cidade
entregue quase suspensa
nas mãos dos que escrevem a beleza
a couraça da criança desvanecendo mareada
na alegria úmbria do horizonte.

e é talvez a sensibilidade
o esforço do corpo para se dar
ao outro que vem ao centro
de si mesmo a música
esculpindo-se aberta à funda curiosidade
da hora que há-de vir
sem tu te dares conta
a fórmula que não tem fado nem musa
a lua que à morte tece a fuga
para chegar cedo na noite
a crisálida desnudando a ferida
um caminho próximo a nado purifica
a missão infinda do homem no mundo.


*




S.S (Sandra Santos; Barcelos, Portugal; 1994)

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