Questionário de Sofia Carvalhinha para a revista de poesia Cuaderno Ático






A partir de 2011, dou início a uma etapa deveras importante no meu percurso pessoal e académico com a minha entrada na licenciatura de Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2013, fundo e passo a coordenar o grupo académico Mutações Poéticas. Trata-se de um projecto artístico dedicado à difusão das artes e culturas. Como se lê no manifesto do projecto: “não nos reunimos meramente para tomar o chá das 5 ou aplaudir metafísica de Pessoa”. Acreditamos plenamente na capacidade que a arte comporta em si de legar aos indivíduos os instrumentos necessários para a sua emancipação. Esta experiência inspirou-me para a fundação de um segundo projecto, também na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o “Murus – Movimento estudantil para a Cidadania”. A essência do projecto fora directamente transportada do Mutações Poéticas, abrangendo áreas mais diversificadas como a acção social, o ensino superior ou a pedagogia. A estes dois impulsos entusiastas segue-se a minha participação como colaboradora e redactora no Jornal Universitário do Porto, através de vídeos de opinião, comentário politico ou simplesmente textos filosóficos e poéticos. Assinala-se ainda a participação no projecto de alfabetização de adultos no Bairro do Cerco, pela associação juvenil “Rampa”, no qual fui formadora.

Na Universidade de Aveiro ingresso no Mestrado em Ciência Política em 2015. Num espaço de seis meses, sou eleita representante do mestrado e Embaixadora da Universidade de Aveiro no projecto “Bolsa de Mérito Social”. As actividades desportivas e artísticas alcançaram sempre uma posição cimeira nos meus interesses pessoais, tendo praticado teatro durante cinco anos e danças urbanas durante onze anos no Colégio Liceal de Santa Maria de Lamas, encontrando-me actualmente activa na procura de aulas de piano. A escrita e a poesia ocupam um lugar de profunda intimidade na minha vida e nela podem encontrar-se todos os grandes desígnios da minha alma.

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1. Qual é a sua opinião relativamente à situação editorial que vive a poesia escrita por autoras na actualidade? Tanto no que respeita a autoras da sua própria língua, contemporâneas ou não, como a autoras traduzidas.

Creio existir uma lógica de elitismo excessivamente elevado no que concerne aos critérios de selecção de autoras(es) que são publicados. Os critérios de selectividade nem sempre reflectem a difusão de conteúdos de qualidade para o público. As editoras maioritárias tendem a promover conteúdos mainstream e a asfixiar a emergência de novos autores. As editoras minoritárias regem-se igualmente por esta lógica de elitismo, trabalhando para públicos de classe média/alta, não se verificando quaisquer tipos de preocupações de índole social no trabalho desenvolvido. As editoras alternativas, mesmo querendo desenvolver espaços de maior abertura pela inclusão de novos autores ou pelo desenvolvimento de dimensões sociais, confrontam-se com pressões externas (orçamentos limitados, recursos limitados) que culminam com a redução de liberdade de acção das mesmas.


2. Esboce alguns rasgos significados da sua criação poética.

O processo criativo processa-se pela criação de um espaço de culto ao divino. O poeta encarna um canal pelo qual o divino actua e através do qual é materializada essa essência. Para que este processo decorra plenamente, exige-se do poeta uma autêntica espontaneidade. O processo de materialização do poema é feito compulsivamente. O poema deverá reflectir de forma transparente os estados espirituais experienciados pelo poeta. Tal não será possível, caso o poeta se prenda a processos de intelectualização das ideias e sensações. Neste seguimento, não é recomendável a alteração do corpo poético numa fase a posteriori.

Sendo o poema a expressão genuína da essência do poeta e do divino, quão mais intocável permaneça, mais sincero e próximo do divino manter-se-á.


3. Por último, recomende-nos algumas poetas (de qualquer época e lugar) que julgue de indispensável leitura.

Recomendo a leitura de poetas portuguesas como Natália Correia e Sophia de Mello Breyner, não só pela densidade poética das suas obras, mas essencialmente pelas personalidades politicamente activas e interventivas. Para um aprofundar da essência feminina portuguesa a poetisa Florbela Espanca.


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Poema de Sofia Carvalhinha na revista de poesia Cuaderno Ático


AO ENTARDECER DO SILÊNCIO

Ao entardecer do silêncio
como névoa condensada no meu peito,
recolho-me dentro de mim
neste pequeno berço de anseios,
onde se agitam esperanças ténues
e abalam dores inconquistadas.
Me pergunto, à criança que morre
brotando algures no lugar da alma,
quantas mágoas habitam em ti
e como me permaneces tão somente bela.

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AL ATARDECER DEL SILENCIO

Al atardecer del silencio
como niebla condensada en mi pecho,
me retraigo dentro de mí
en esta pequeña cuna de ansias,
donde se agitan esperanzas tenues
y abalan dolores inconquistables.
Me pregunto, a la niña que muere
brotando en alguna parte del alma,
cuantas angustias habitan en ti
y como me permaneces tan sólo bella.

(Traducción de Sandra Santos)


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