Questionário de Nydia Bonetti para a revista de poesia Cuaderno Ático



A poeta brasileira Nydia Bonetti


Nydia Bonetti, 1958, engenheira civil, Piracaia, SP. Publicada em 2012 pela Coleção Poesia Viva do CCSP, antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos) e pelo Projeto Instante Estante de incentivo à leitura, Minimus Cantus, Castelinho Edições. Lançou seu livro SUMI-Ê em 2014, pela Editora Patuá. Tem poemas publicados na Revista Zunái, Eutomia, Germina, Mallarmargens e outras revistas digitais. Faz parte da coletânea QASAÊD ILA FALASTIN (Poemas para a Palestina) Selo ZUNAI, da Antologia Digital Vinagre - Uma antologia dos poetas neobarrocos e da antologia “29 de abril: o verso da violência”, entre outras. Deve lançar seu próximo livro ainda este ano. Blog: L o n g i t u d e s (http://nydiabonetti.blogspot.com.br/).


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1. Qual é a sua opinião relativamente à situação editorial que vive a poesia escrita por autoras na actualidade? Tanto no que respeita a autoras da sua própria língua, contemporâneas ou não, como a autoras traduzidas.

São conhecidas as questões históricas que fizeram com que as mulheres permanecessem numa situação de desfavorecimento em relação aos homens nos mais diversos aspectos, inclusive no campo da literatura, o que fica evidenciado quando lembramos que dos 112 escritores premiados pelo Nobel de Literatura apenas 14 são mulheres.

Se fizermos também um inventário breve dos poetas convidados a festivais, bienais e eventos, dos indicados a prêmios literários e principalmente dos ganhadores desses prêmios, poderemos constatar o desequilíbrio, que é ainda maior no que tange à divulgação na imprensa e na mídia. E claro, “sendo pouco divulgada é menos lida, é menos conhecida, é menos convidada, é menos premiada”. É um fato. 

Felizmente as mudanças começaram a acontecer.  No Brasil, em 2015, por exemplo, Micheliny Verunschk e Débora Ferraz, receberam merecidamente o Prêmio São Paulo de Literatura nas categorias Autor Estreante +40 e Autor Estreante -40, respectivamente e Maria Valéria Rezende levou o Prêmio Jabuti 2015, na categoria romance, também escolhido como livro do ano, o que nos enche de alegria e esperança. No entanto, podemos verificar que o número de escritoras – tanto da prosa como da poesia - finalistas e ganhadoras desses grandes prêmios de língua portuguesa, tem sido historicamente bem inferior ao dos poetas homens.    

Creio que não encontraremos no meio editorial brasileiro ou internacional, nem junto à crítica, alguém que ouse afirmar que a escrita de mulheres poetas seja inferior à dos homens.  Felizmente algumas das pequenas e médias editoras brasileiras já publicam hoje proporcionalmente a poesia de homens e mulheres, mas é evidente que há muito ainda a se caminhar nesse sentido. 


2. Esboce alguns rasgos significados da sua criação poética.

Sempre que questionada sobre os motivos que me levam a escrever, respondo: para não enlouquecer – mais. Essa busca por equilíbrio e por respostas às incontáveis indagações e questionamentos humanos é provavelmente o que me leva a escrever. Por que poesia? Porque acredito na poesia como uma espécie de tradução da “devoção interna”, muito além de qualquer manifestação intelectual - e procuro seguir nesse caminho.

Alguns leitores dizem perceber na minha poesia alguns “traços da filosofia e da poesia oriental”, outros dizem que ela se próxima de uma espécie de “mística poética, que dialoga com o silêncio, que canta o sagrado sem nomeá-lo”, muitos citam o minimalismo presente na grande maioria dos meus poemas. Confesso que fico feliz com essas leituras, mas eu mesma não saberia me “traduzir”, então deixo aqui essas observações dos leitores.        


3. Por último, recomende-nos algumas poetas (de qualquer época e lugar) que julgue de indispensável leitura.


Absolutamente indispensável: Orides Fontela, simplesmente genial, minha poeta de cabeceira, ainda pouco conhecida considerando a grandiosidade da sua obra.  Não posso deixar de citar também Marina Tsvetáieva, Alejandra Pizarnik, Hilda Hilst, Ana Hatherly e Emily Dickinson. A poesia das mulheres palestinas, afegãs e curdas, me sensibiliza e inquieta - gosto muito! Recentemente tenho lido algumas poetas cubanas, como Reina María Rodríguez, maravilhosa. São muitas as indispensáveis - felizmente. Gosto de citar as contemporâneas brasileiras vivas – aliás, vivíssimas, uma geração de poetas extraordinárias que realmente impressionam: Marceli Andresa Becker, Roberta Tostes Daniel, Daniela Delias, Mariana Botelho, Carla Diacov, Priscila Merizzio, Marilia Kubota, Micheliny Verunschk, Nina Rizzi, Lisa Alves, Katyuscia Carvalho, Andreia Carvalho e poderia aqui nomear inúmeras outras belas poetas, quase todas reveladas pela internet, através dos blogs, revistas digitais e redes sociais.


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Poema de Nydia Bonetti na revista de poesia Cuaderno Ático


a poesia fez de mim uma ilha
onde pássaros pousam
queimam os pés
— e partem

*

la poesía me ha vuelto una isla
donde pájaros se posan
se queman los pies
— y parten

(Traducción de Sandra Santos)


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